sábado, 21 de novembro de 2009

Rebelado sem causa?



Provedor Oi – 4002 3131

suporteadministrativo@oi.com.br
Atendente – Creusa
Supervisor – Maicon

Senhor Supervisor,

A pedido seu e com muito desgosto meu, envio-lhe em anexo 3 documentos de minha mãe, o RG, o Passe Livre (documento concedido apenas para portadores de deficiência) e a Carteira da Associação dos Surdos do Ceará. Isso prova que a minha mãe é surda e que eu respondo por ela em serviços por telefone.

O que me revolta é o fato de que, no momento que eu efetuei a contratação do Provedor Oi, não foi necessário que minha mãe “falasse” ao telefone, portanto, qualquer pessoa pode fazer a contratação do serviço, mas na hora de cancelar, por que somente a titular da linha pode fazer isso? É simplesmente equivocada a maneira como a empresa da qual o senhor faz parte trata o cliente, pois isso é um artifício ridículo para que o cliente permaneça mais tempo com o serviço, sem necessitar dele. Não estou questionando o fato de enviar os documentos que provam a deficiência da titular da linha, questiono o fato absurdo de que essa comprovação só foi exigida apenas para cancelamento.

Desejo com todas as minhas forças que este e-mail não pareça algo de um rebelado sem causa, mas que sirva como uma reflexão para a melhoria de normas que sejam viáveis e equivalentes em todos os setores da empresa (contratação e cancelamento), pois é bastante injusta a maneira a qual nós, clientes, estamos submetidos diante do Provedor Oi.

Senhor Supervisor, não seja apenas uma peça corporativa, uma máquina de sua empresa, pense como ser humano, pense como cliente, trabalhe em prol de uma sociedade mais justa, de relações melhores nesses tipos de serviço, oponha-se à idéia de lucro exacerbado que grandes empresas carregam como índole e busque a transformação dessa realidade deturpada e mercadológica a qual o senhor está inserido talvez sem perceber.

Se este e-mail atingir seu âmago, por favor, encaminhe-o para os outros cargos chefes da empresa e propague minha crítica, afinal, um dos principais falsos preceitos de qualquer grande empresa é o bom atendimento.

Aguardo um resposta.


Muito atenciosamente,

Danilo Castro

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Exercício, rascunho ou manifesto?




GPET apresenta, com Danilo Castro e Raíssa Starepravo, REVOAR - Direção de Andrei Bessa

mais informações:
www.espetaculorevoar.blogspot.com

Uma ansiedade (escrevi ansidade - devido à ansiedade que me doma, engoli a letra “e”) boba toma posse do meu corpo nesses últimos tempos. A típica ansiedade do artista inseguro consigo mesmo. Ao dormir, ao levantar vêm-me os fluidos devaneios da estréia de “Revoar”., uma releitura de "Esta propriedade está condenada" de Teneesse Williams. Li agora uma entrevista do Heiner Müller* e percebi o quanto o "Revoar" está embebido no veneno dos mortos do futuro, fantasmas que nos assombram e tomam posse de nós sem que nos demos conta. Meu corpo fala ou sou fantoche desses espíritos inquietos que viram em mim uma alma vulnerável, fácil de se corromper? Talvez os cânones do teatro clássico nos apunhalassem se pudessem, mas temos fantasmas protetores. A culpa pode se explicar nessa fragmentação louca que Brecht instaurou, deixando vácuos no nosso espetáculo, vácuos onde enxertamos a mais pura poesia de nós mesmos e nos permitimos algo estranho que dialoga com a performance. Sim, eu já consigo digerir perfeitamente, mas parece que ainda não tenho forças para acreditar que o que foi evacuado seja algo instigante para o outro, assim como é pra mim. Bem, alguém já disse que é preciso aceitar a presença dos mortos para entender o futuro, quem sou eu pra discordar? O que digo agora talvez sirva apenas como uma terapia para conter as energias que me arrastam para além de mim mesmo (devo saber usar a minha força criativa na cena e não agora, num momento inoportuno para a insanidade). Louco devo ser diante dos holofotes ou nos meus métodos anti-pedagógicos de treinamento teatral. Cá estou pensando... O que quero com o “Revoar”? A denúncia já existe, os problemas já são de conhecimento universal. Não quero apenas dizer o que já foi dito, quero encontrar a maneira certa de dizer para que eu, com o poder que me propus a tentar conquistar ao escolher ser ator, possa fisgar o mais íntimo pedaço do âmago alheio. Fisgar não para comovê-lo, mas para atordoá-lo. Quero ser pólvora, mas a explosão deve acontecer no meu espectador. Creio que já estamos caminhando assim desde os primórdios tempos de ensaio, mas vez por outra esquecemos disso. E é um medo bobo, o medo do imaturo em cena, o medo de cair aos primeiros passos, mas um medo que caminha junto à coragem, um medo que me propulsiona. Minha inexperiência me leva a pensar como minha família, amigos, classe teatral vai reagir a esse algo diferente a que estamos nos propondo. Para quebrar convenções é necessário ter ao menos tido, em algum momento da vida, a oportunidade de vivê-las. E nós estamos brincando feito crianças destemidas, inventando possibilidades. Lehman, em “O teatro pós-dramático”, já disse que não há necessidade de conexão e justificativa em tudo, isso é algo meio freudiano, esquizofrênico, não sei, mas é, no mínimo, libertador. É um processo de autoconhecimento, é transformador, é perturbador porque também sou público de mim mesmo. Almejo meu espectador não como um apreciador de um objeto estético, almejo-o rebelado junto a mim, só não sei se o meu poder de Cristo em cena é suficiente para laçar uma multidão de fiéis. Retornando ao que já disse, é medo de ser incapaz, de não atingir o conflito que Müller propõe entre espaço cênico e platéia, se a força confluir para um lado apenas, estaremos ainda convencionados ao teatrinho de mercado. É algo muito subjetivo, mas talvez este registro seja mais importante do que imagino. É um exercício, um rascunho ou um manifesto de mais um dos homens que existe em mim, porque acredito, sim, acredito na "arte como perturbação do consenso, como instrumento de subversão." - Heiner Müller



Danilo Castro

08.11.2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sebastião e Danilo


Sebastião era um sapo. Danilo era um grilo. Simples assim. Enquanto no resto do mundo os sapos comiam os grilos e os grilos fugiam dos sapos, os dois viviam muito bem, obrigado, e eram felizes. A verdade é que Sebastião e Danilo eram amigos com muitas coisas em comum. Os dois eram verdes. Os dois viviam saltando. Os dois adoravam plantas de folhas largas. Os dois viviam na beira da mesma lagoa. Os dois adoravam cantar à noite. Aliás, foi essa história de soltar a voz que fez os dois ficarem famosos. Em noite de lua clara, vinha a bicharada toda para ouvir a cantoria. A coruja lá no alto da árvore, os peixinhos dentro da lagoa. Os bois bem grandes e fortes, os mosquitinhos pequenininhos. A lesma bem devagar e os coelhinhos correndo, correndo. Só que o sucesso era tanto que logo começou a confusão. Teve uma noite em que as libélulas, apaixonadas pelo grilo, começaram a gritar: "Danilo! Danilo! Danilo!" Os jacarés, que eram fãs do sapo, ficaram com muita raiva daquilo e logo puxaram o coro: "Sebastião! Sebastião! Sebastião!" A coisa foi esquentando e logo os bichos estavam divididos. Meio a meio, um tanto de cada lado. De uma hora pra outra começou a briga. Era pena voando daqui, água espirrando dali, miados, mugidos, piados, latidos, rosnados, tudo numa bagunça tão grande que ninguém escutava mais a música. No meio daquilo tudo, Sebastião e Danilo saíram de mansinho e nunca mais voltaram àquela lagoa, para a tristeza da bicharada. Mas se você for com cuidado, sem fazer nenhum barulho, em um certo brejo não muito longe dali, vai ouvir bem baixinho, quase um sussurro, a música mais bonita daquela região. Sem público, nem confusão, os dois continuam juntos, amigos, uma dupla de verdade. Cantando sempre, só mesmo porque cantar é muito bom.

Este conto foi publicado na revista ESCOLA da editora Abril em novembro de 2008 e tem autoria de Maurilo Andreas

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Inenarrável


Parafraseando Tom Jobim, eu afirmo conficto: À BAHIA NÃO DIGO ADEUS, MAS ATÉ BREVE.

"Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer.
E me arriscar à enorme surpresa que sentirei
com a pobreza da coisa dita.”
Clarice Lispector


Quase todos os dias, uma bolsa se rompe e anuncia o parto. Nasce então das minhas entranhas, um pedacinho de mim metamorfoseado em letras compositoras de verdades, mentiras e dúvidas, porque eu nunca delimito até onde é imaginação ou realidade. Um broto está se desabrochando, nas próximas linhas, vai se transformar numa rosa linda, espero. Ou será que vou escrever asneira?

Meus poucos, mas importantes minutos em que estou diante do que escrevo, hoje são inteiramente dedicados a um Ser que me mostrou uma vida com outros olhos, que me fez despreocupar do amanhã, mostrou-me quão bom é viver o agora. Trata-se de algo além do que posso relatar não por não poder, mas por não saber. As palavras faltam ou os sentimentos são nobres demais ao ponto de serem impossíveis de limitarem-se aqui, neste papel?
Não sei escrever, talvez se eu desenhar na areia eu consiga representar melhor minha evasão, talvez se eu puder cavalgar num alazão branco sentindo no rosto o gosto do vento, eu possa dizer melhor. Talvez se numa noite fria chover forte e eu correr pelado pela madrugada banhado pela chuva e o luar, eu consiga representar a felicidade que reina aqui no meu céu.

Não sei escrever, nem as comparações me são dignas. Vou caçar incessantemente no dicionário todos os vocábulos que eu puder e procurar desvendar a melhor maneira de contar, ou melhor, vou tentar conhecer outras línguas e misturar todas elas para narrar numa epopéia essa sensação fresca no peito. Talvez nem assim funcione, idéia fracassada antes mesmo de se fecundar. Mas será que essa sensação seria boa se eu conhecesse plenamente tudo que me envolve a ela? Creio que não. Talvez bom seja ter vários “talvez” para ser hipotético e dar asas ao que não é palpável, mas é real.


Danilo Castro
07.10.2008